de onde vem a inspiração, a inventividade, a criatividade?

2010 fevereiro 5
por tetelacerda

Tem dias que escrevo com certa facilidade. Há outros, porém, que me faltam as palavras, não consigo transmitir sentimentos com a profundeza que os sinto. Tem semanas que dias passam e falta um ímpeto de começar a teclar. Ai vem um dia que andando, sonhando, conversando, me vem uma idéia, emoção, experiência ou anseio e teclo incessantemente.

E porque é assim?

Me pego pensando como será o processo criativo na mente humana.

Ao longo do tempo nosso cérebro mudou, ganhamos uma parte, o córtex pré frontal, que nossos predecessores não tinham, capaz de simular experiências.

Para responder essa pergunta, será que tenho que voltar ao básico? Recorrer a antigas explicações de antigas civilizações?

Até que outro dia vi um discurso de Elizabeth Gilbert, escritora, contando sobre ss antigos Gregos e Romanos, e como eles atribuíam a criatividade a uma intervenção divina externa. Naquela época não se acreditava que a criatividade vinha do ser humano. Era um espírito sublime que vinha de fontes externas e não do indivíduo.

Os gregos chamavam esses espíritos de daemons (grego para “divindade”, “espírito”). Os romanos titulavam essas criaturas criativas fora do corpo humano de gênios – uma entidade majestosa que vivia nas paredes dos estúdios dos artistas, nas salas de escritores e moldam o resultado do trabalho inventivo.

Portanto existia uma distancia psicológica que resguardava o artista da decorrência e efeitos de seu trabalho, que também era uma proteção para o narcisismo e uma acolhida para um fracasso.

Com a chegada do Renascimento tudo mudou. O ser humano tornou-se centro do universo e já não havia espaço para criaturas místicas. O humanismo tinha chegado com toda sua racionalidade. A humanidade começou a acreditar que a criatividade vinha de dentro do individuo.

O conceito muda, artistas começam a ser conhecidos como gênios e não como ter gênios. Toda a responsabilidade de uma criação viria então daquela pessoa.

Seria muita pressão para uma alma, um espírito, uma mente? Capaz de desvirtuar egos, gerando expectativas difíceis de governar? Uma pressão tamanha, capaz de destruir artistas – levando-os a depressão, alcoolismo, desfalecimento, tormento?

Com certeza muitos rejeitariam a idéia de criaturas divinas passando inspiração para certas pessoas que escolheram, com muita base cientifica.

Mas e se fosse assim? E se de fato é assim? Algum encontro espiritual, divino, mágico?

Já sentiu que idéias, inspiração, palavras, traços, vieram de uma fonte não identificada?

E que fonte é essa? Como chegaram essas idéias até sua mente?

Como controlar esses impulsos criativos e como manifestá-los?

E quando vêm esses pensamentos esquivos, tentadores, irresistíveis e não temos papel e caneta para anotá-los?

Vem aquela angustia de que talvez não consiga escrevê-los de novo, que não conseguirei transmitir a idéia como eu queria, como veio de primeira…

E nessa hora converso com a divina criatura e digo que farei o esforço maior para me lembrar de tudo até correr para a caneta ou teclado mais próximo.

como vejo A Partida

2010 fevereiro 2
por tetelacerda

Já parou pra pensar o que te faz ter seus valores? Como seu código de crenças foi construído?  

Hoje não tenho duvidas que o que acreditamos, tememos e esperamos no nosso sistema de importâncias na vida é um produto de ambiente, criação, educação e personalidade.

Um dos variáveis é onde vivemos geograficamente, as paisagens, o clima, o sistema política, a ordem social…

Acredito que uma pessoa que cresceu com as monções da Índia deve ter mais medo de desabamento do que eu.

Não me surpreenderia se uma pessoa que vive em Cuba descreva a palavra liberdade diferente de mim.

É muito provável que alguém das montanhas gélidas da Rússia se emocione diferentemente de mim ao ver o mar.

Tem também muita influencia com o que nossos pais nos deixavam ver na televisão, o que conversavam na mesa de jantar, onde nos levavam nas férias e horas livres.

Você andava descalço na praia, na mata ou na serra? Ou ficava confinado dentro de um apartamento jogando videogame? Como passava as férias? Era obrigado a ler? Ganhava presentes diariamente ou só duas vezes no ano? Conviveu com avós, tios, primos, ou só com pais e irmãos? Rezava antes de comer?

Alem disso, tem a ver com as tendências do momento. Você é da era dos livros desenhados com fábulas de Aesop? Dos jogos de máfia do Playstation? Do oceano sem fim da internet? Ou de jogos de empilhar cubos no Gameboy?

E sem dúvida tem um componente que é seu. Só seu. É a sua vivacidade, sua curiosidade, sua intensidade.

Nas viagens de carro adormecia ou ficava com a testa colada na janela? Tinha medo de pegar bicho de pé ou sempre perdia um pé do chinelo? Subia em árvores ou gritava “saí daí” de lá de baixo?

É como se fosse uma enorme edificação que a cada momento vivido depositamos um pequeno tijolo, e assim vamos empilhando, um atrás do outro.

O meu conjunto de opiniões adotadas por fé e convicção é ora como uma sopa, onde os ingredientes estão tão mesclados que é impossível separá-los, e ora são como uma salada, onde posso sensorialmente distinguir cada componente. Tenho uma avó católica e uma avó espírita. Já passei por países e troquei ideais profundamente com pessoas e lugares com diferentes religiões – com um monge budista em Kyoto, com uma família judia em Herzelia, com freqüentadores de centro espírita, com um astrofísico ateu, com amantes incondicionais de Deus. E cada um tem uma interpretação, opinião, conceito e imagem diferente sobre a morte.

Me vi diversas vezes sem palavras quando ao recomendar o filme “A Partida” alguém retrucava – “mas porque? O que tem de tão especial?” Eu sempre respondia “veja e depois me diga”. Até que enfrentei o desafio da falta de palavras ou quem sabe o freio que vem do hesito de entrar num assunto um tanto controverso.

Uma das coisas que me mais me encantou no filme, foi a mensagem sobre a morte. No modo que hoje vejo esse capítulo da vida, ele não é o fim, nem é um meio. Ele é uma passagem. E é exatamente assim que uma cena do filme a retrata. Mas não se resume a isso, o filme também demonstra o respeito e cuidado com corpos sem vida que o protagonista Daigo tem no seu trabalho como nokanshi no Japão – profissão de limpar e adornar o morto.

O interessante é ver como Daigo inicia esse trabalho apenas como fonte de renda, envergonhado, omitindo a sua esposa do seu ofício e ao longo da história ele vai se encaixando e se apropriando das etapas do trabalho até que percebe não apenas o sentido, mas a importância dessa profissão.

Uma das coisas que me tocou neste filme, foi o processo de como a morte deixa de ter um sentido meramente material e torna-se sensível e lúdico na medida em que vemos Daigo dar a beleza aos corpos, beleza esta que já lhes pertencia. Os últimos instantes do corpo na terra viram poesia quando ele os prepara para partir com distinção e nesse instante as despedidas em família são emocionantes – seja pelas lagrimas tristes, olhares melancólicos ou por momentos de aceitação da pessoa como era.  

Poderia me estender aqui contando cada parte terna desse filme, como o valor do perdão, o resgate de uma relação entre pai e filho, o respeito pelos mais idosos, mas deixo essas mensagens serem resgatadas por você mesmo ao ver essa obra primorosa que lhe fará rir e chorar e num ritmo lento, ao som de musica clássica, lhe fará, talvez, repensar como podemos encarar o fim de uma vida.

uma pousada com sentimento

2010 janeiro 21
por tetelacerda

Uma das coisas que eu amo sobre o Rio é o fato de ter praia e serra a meu alcance. A praia está ali, desde o buxixo da cidade, até algumas horas mais distantes, em outro buxixo, como Búzios, Angra, e muitas outras.

E tem também a serra, para no inverno sentar em frente à lareira, e em qualquer época, ficar numa pousada rústica, tomar um vinho, degustar boas refeições e estar cercado de natureza, numa fuga ora romântica, ora introspectiva, ora familiar.

Feriado dia de quarta, sem possibilidade de fazer “puente” como se diz na Espanha (fim de semana prolongado) nem enforcamentos, o jeito é fazer um day trip – uma escapa de apenas um dia. Então é qualidade sob quantidade.

Depois de dois anos morando na Europa, as distancias aqui no Brasil ainda me impressionam. Três, quatro, cinco horas… Tente dez – e nem chegamos ao estado vizinho. Mas nem por isso deixamos de descobrir locais prazerosos.

A apenas uma hora e meia da capital fluminense, subindo a serra em estradas que serpenteiam por montanhas (atenção, se sofrer de enjôo, dirija), está Itaipava. Com o passar do tempo vem crescendo e já tem cara de cidade, mas ainda faz parte do Município de Petrópolis.

Nessa área existe uma grande variedade de lazer entre parques, cachoeiras, trilhas, caminhadas, lojas de artesanato e cerâmica. Mas o nosso passeio foi gourmet et gourmand.

Como todo recanto detalhista e aconchegante a pousada da Alcobaça, tem muita história pra contar.

Numa casa construída em 1914 por um industrial carioca, para as férias de sua família, no distrito de Correias, encontra-se hoje a aconchegante Pousada da Alcobaça. Uma reforma foi feita e o lindo casarão preparou-se para receber hóspedes. A casa tem sala de lareira, sala de leitura, bar, restaurante, varanda e pátios. A cozinha com uma grande mesa de madeira, sempre cheia de ingredientes da horta, é muito visitada.

cozinha (foto: www.pousadadaalcobaca.com.br)

Os jardins refletem um astral das montanhas da França, todo projetado pela proprietária, D. Laura. Ela mesclou um look de jardins europeus com uma brasilidade proveniente da Mata Atlântica.  

D. Laura no seu jardim (foto: www.pousadadaalcobaca.com.br)

árvores centenárias

jardinagem impecável

muito verde, muita paz

bambuzal

tem até casinha na árvore

No caminho até o restaurante, eu já estava encantada. D. Laura, uma senhora sorridente e simpática sabe receber. Até hoje administra tudo e verifica que esteja tudo em ordem e os sabores conforme suas antigas receitas.

ambiente do restaurante

Nossos pedidos, o coelho em molho de vinho e carne assada no forno a lenha, foram acompanhados de ingredientes essencialmente brasileiros – arroz, feijão e farofa.

coelho ao molho de vinho

carne assada

acompanhamentos brasileiríssimos

sorvete crocante, doce de leite, doce de côco

Um dos grandes sucessos da casa é a feijoada de sábado, mas o cardápio é variado: camarão com molho de ervas, à baiana ou com catupiry; filé mignon, jamais bem passado, com molho madeira, au poivre, ao gorgonzola ou ao champignon.

De sobremesa pedimos o célebre doce de coco do engenho – receita da avó de Laura, feito com baba de moça; doce de leite e sorvete crocante. Tudo delicioso e feito com muito carinho. Essa deve ser sua receita.

Sabe o que mais gostei da Pousada da Alcobaça? Vi sentimento em absolutamente tudo. Desde o jardim bem cuidado, no tempero da comida, nos ambientes minuciosamente decorados… Adoro lugares cuidados com emoção.

POUSADA DA ALCOBAÇA
Rua Agostinho Goulão, 298, Correas, (24) 2221-1240. www.pousadadaalcobaca.com.br.
Restaurante, diariamente, 8h/23h.

ambiente da varanda do restaurante

outra varanda

uma das janelas do restaurantes com flores frescas

uma das salas

outro cantinho...

salinha da lareira

cada detalhe...

parece uma casinha de boneca

turismo a quilometros da tragédia

2010 janeiro 19
por tetelacerda

A Royal Caribbean, empresa de cruzeiros de luxo prometeu doações humanitárias para o Haiti na ordem de grandeza de um milhão de dólares.

Ao mesmo tempo, continua levando turistas para a ilha devastada recentemente pelo terremoto com a mais forte magnitude dos últimos vinte anos.  

O presidente da empresa justificou que o resort e praia privada – Labadee, no norte do Haiti, inaugurando seu novíssimo píer é 160 quilômetros da capital Port Príncipe (área mais afetada), mas que o cruzeiro estaria disponível para receber mantimentos para transportar nos barcos de apoio.

Depois de um grande fuzuê na mídia, a Royal Caribbean declarou que seu cruzeiro Independence of the Seas visitou a ilha levando água e comida.

Apesar da ajuda humanitária, que não deixará nunca de ser um gesto pulcro e caridoso, como adjetivar o fato de levar turistas, gozando de quantidades absurdas de comida e bebida, com todo o desperdício que sabemos que tem nesses cruzeiros, há alguns quilômetros de uma tragédia dessa grandeza?

foto: Carolyn Cole para Los Angeles Times

 

Apesar dos esforços humanitários, como você se sentiria relaxando e se empapuçando numa praia privada no Haiti diante das circunstancias? Embarcaria nesse cruzeiro, de início?

foto: panoramio.com

Poderia este cruzeiro estar lotado de mantimentos apenas, em vez de turistas?

O que será que passou pela mente dos que ali, perto da tragédia, gozavam de suas férias?

Será que os passageiros desembarcaram? E se desembarcaram; seu consumo na ilha para ajudar a economia justifica?

A ida até Labadee para manter os empregados produtivos justifica a visita? O dinheiro que fica em Labadee – quanto vai para a Royal Caribbean versus a quantia para esses funcionários?

E se o cruzeiro levasse voluntários, além de mantimentos?

Estas são algumas perguntas que permeiam a minha mente escapista, quais são as suas?

um mundo Cirque du Soleil

2010 janeiro 15
por tetelacerda

Hoje acordei pensando que gostaria de viver num mundo Cirque du Soleil.

Este fantástico mundo entrou na minha vida quando tinha apenas oito anos de idade. Nós morávamos em Maryland e Saltimbanco estava passando em Washington DC. Minha mãe se encantou com a idéia de levar-nos a um circo sem animais (ela, que é uma protetora deles) com acrobatas de diferentes países vestidos e maquiados de forma tão colorida e lúdica.

A empresa Canadense ainda iniciava sua expansão pelos EUA com alguns poucos espetáculos.

Lá estava eu, sentada na beira do meu assento, queixo apoiado nas mãos pequeninas, olhos arregalados como lua cheia, vidrada, hipnotizada; mas não apenas pelos malabarismos, mas pelo mundo que aquele espetáculo traduzia. Era um mundo quimérico, com mistura de turbilhão e calmaria, onde a diversidade era celebrada; uma odisséia alegórica por uma cidade delirante e avivada. Tinha em “que” de italiano, chapéus pontudos, mascaras venezianas, carinhas que me lembravam Pinocchio…

Mas adiante, vi diferentes espetáculos em diversos países e o Cirque nunca deixou de me impressionar. Virou um dos meus escapismos preferidos. Onde tem, vou atrás, para viver aqueles 120 minutos fascinada, entorpecida, pela beleza estética e pela inventividade envolvente.

E assim, mais tarde, o Cirque foi case study na faculdade, onde já aparecia no mundo dos negócios como exemplo na indústria do entretenimento e no mundo empresarial. Não é apenas uma companhia circense que cresce exponencialmente e entretém platéias pelo mundo, é também um exemplo de empresa inovadora, com capacidade de se reinventar. Ademais, tem programas de cidadania global com projetos sociais em mais de 20 países.

Em outra ocasião, viajando com a ONG Up With People durante seis meses num programa de treinamento de responsabilidade social, conheci no grupo de jovens que participaram comigo, um ex diretor de produção do Cirque du Soleil. Apaixonado pela empresa, ele me contava histórias dos espetáculos, dos artistas, das fantasias, das musicas… como não apaixonar-se?

Com sede em Montreal, a empresa começou em 1984 com 73 funcionários. Atualmente tem mais de 4,000 funcionários pelo mundo, com mais de 1,000 artistas. São talentos oriundos de mais de 40 países que falam mais de 25 idiomas.

E as musicas? Já pararam para escutá-las? Talvez seja necessário refrescar a memória do espanhol, italiano e francês, idiomas, além do português, que normalmente cantam, com mensagens de esperança, luta, alegria e um novo mundo. Algumas letras, porém, você não entenderá, estão escritas em “cirquish”, um idioma criado por eles.

Em um dos espetáculos que fui, comprei o livro: The Spark, onde o ex presidente de conteúdo criativo leva o leitor até o mundo Cirque du Soleil através da história de um homem qualquer em busca de um significado em sua vida profissional e pessoal. Esse verdadeiro laboratório de criatividade e inovação comprova como esse dois ingredientes são essências não só num negócio, mas na vida pessoal e em tantos outros aspectos da vida. O nome do livro é The Spark (a faísca), pois demonstra qual é a faísca que incendeia a criatividade. Essa leitura ensina que todos, independente de carreira ou ofício, temos uma criatividade, mas cada um decide como explorar essa força poderosa.

Sim, eu queria conhecer esse mundo. Não só porque contorcionistas, malabaristas, palhaços e trapezistas vivem da arte viajando pelo mundo; mas principalmente porque é um mundo harmônico, aprazível, inovador, flexível e culturalmente tolerante.

Semana que vem, lá estarei eu, como aquela garotinha de oito anos, na beirada do assento, olhos bem abertos, num grande escapismo, assistindo e sonhando simultaneamente.

fim de ano na Republica Dominicana

2010 janeiro 12
por tetelacerda

Esse fim de ano foi em família. Viajamos para um país novo? Sim. Mas o fim de ano foi sobre estar em família (uma delas).

A Republica Dominicana é um país no Caribe, na ilha Hispaniola, que compartilha com o Haiti. Metade da ilha é Haiti e a outra metade é Republica Dominicana.

Foi o primeiro território na America a ser descoberto por Cristóvão Colombo. É a segunda maior ilha do Caribe, depois de Cuba. Alias, com Cuba a comparação não é apenas com o tamanho da ilha, mas com a qualidade do rum e dos charutos.

Punta Cana, um dos destinos mais procurados pelos turistas, é o típico cartão postal Caribenho – metros de areia branca e fina que te leva até o mar azul turquesa e uma fila interminável de coqueiros.

Éramos mais uma família de turistas em um dos resorts all inclusive. A grande maioria dos resorts e hotéis nessa área é nesse sistema – tudo incluído. E devo afirmar – não há nada melhor que esquecer que dinheiro existe por alguns dias. Para compensar o rápido e fácil ganho de calorias, os hotéis sempre oferecem atividades como esportes, aulas de dança, mergulho, windsurf, kitesurf, parasailing…

Não vou mentir que nesse esquema dá pra ficar de pernas pro ar na praia todos os dias entre mojitos e Presidentes. Mas eu não consigo viajar e não explorar. Não ia me perdoar se fosse até a Republica Dominicana e só conhecesse a praia e o resort. Arrastei a família para alguns programinhas culturais.

Visitamos a fabrica de charutos Dom Lucas e acompanhamos alguns dos seus funcionários na confecção artesanal. Aprendemos sobre o processo de fazer um charuto, desde a colheita das folhas, a secagem, manufatura, armazenamento…

Visitamos uma fazenda produtora de cana e açúcar bastante precária, que ainda é aerada por bois e seus trabalhadores ganham US$9 por dia. A maioria imigrou do Haiti, fugindo de problemas políticos que geram instabilidade e desemprego.

Fomos à outra fazenda, esta produz café e cacau. Tivemos uma degustação do café moído lá, assim como o cacau creolo (pó de cacau in natura), assim como a fruta do cacau, que para alguns de nós da família, baianos, não era novidade, mas outros provaram ali pela primeira vez.

Fizemos passeio de jeep por praias da costa nordeste da ilha, nos lançamos numa tiroleza nessa fazenda, andamos a cavalo, atolamos o jeep, rimos das americanas que não sabiam dirigir carro manual (quem sou eu pra rir nesse quesito), comemos galinha ao molho pardo e deixamos o tucano subir nos nossos braços.

Nadamos com golfinhos.

Viu que uma viagem para o Caribe não tem que ser só praia – restaurante – casino?

Me lembrou muita a Bahia – cana de açúcar, cacau, café, dias ensolarados, serviço lento mas com pessoas simpáticas, felizes e sorridentes.

E como na Bahia, também tem disparidade social e pobreza. Ao transitar pela fazenda de cana de açúcar, as crianças saiam correndo e se penduravam nos nossos jeeps pedindo um trocado ou qualquer coisa: “dame um dólar, chica, dame algo”.

Foram ótimos passeios, conhecimentos locais e culturais, mas a viagem foi sobre estar em família. A vida, nossos caminhos ou sabe lá o que, nos separou e nos espalhou pelo mundo. Portanto os momentos juntos são escassos e valiosos. O ano que nos despedíamos assim como o que cumprimentávamos foi de mudanças, e nada como comemorá-las em família.

O ápice da festa de réveillon foi quando meu cunhado equatoriano parou de dançar repentinamente e perguntou: “Não vamos dar flores a Iemanjá?” Sorri, pensando na troca cultural e ao mesmo tempo em como iria presentear Iemanjá. Na Bahia, eu sempre compro dia 31 rosas lindas e frescas para oferecer. Ali, naquele resort o que faria? Um furto a um arbusto? Um hibisco perdido na beira da praia? Esse ano seria diferente. Dançaríamos um merengue, uma salsa ou até uma bachata. Tomaríamos além da champagne, um mojito e um mamajuana (bebida local feita com rum, vinho e ervas). Reverenciaríamos a lua cheia, que estava de qualquer lugar desse planeta, um verdadeiro espetáculo da natureza. Poderíamos sim saltar as sete ondinhas, a moda caribenha. Mas minha oferenda a Iemanjá seria na volta, do Brasil, quem sabe dia 2 de fevereiro.

escapismo gastronomico em NY

2010 janeiro 8
por tetelacerda

Eu sei, eu sei, acabei de voltar da Republica Dominicana. Escrever sobre qualquer outro lugar seria praticamente uma heresia.

Até que lembro que se tem um lugar que mando e desmando, apronto, faço e “digo” (escrevo) o que quero, é nesse meu lar virtual.

Então vamos para Nova Iorque.

foto: NY photography

Acordei com uma saudade de Nova Iorque incrível. Não sei se são noites de insônia com a companhia de Anthony Bourdain ou se foram papos intermináveis com minha amiga Sissi que acaba de voltar de lá e não vê a hora de voltar… Pode ser porque Nova Iorque é Nova Iorque, onde só os fortes sobrevivem, a cidade que nunca dorme, que tem um pedaço de cada cultura do mundo.

Só sei que meu paladar pede Nova Iorque. Isso mesmo, meu paladar.

Como é que uma ilhota daquelas consegue reunir tantas culturas de diversos países? NY abriga expatriados, refugiados, ilegais, sedentos por dinheiro, cultura, arte, vida noturna, gastronomia… a lista continua.

Um dos highlights de NY para mim é a diversidade cultural gastronômica.

Green Bo (66 Bayard, Chinatown) é difícil apontar apenas um restaurante chinês na Chinatown novaiorquina, são centenas, cada um mais saboroso. O Green Bo é conhecido pelo yellow fish, e sopa de dumplings. É especializado em culinária de Shanghai.

Gray’s Papaya (539 8th Ave) para deliciosos hot dogs (enough said), que ficam ainda mais deliciosos depois da balada.

Meskerem Restaurant (468 W. 47th Street) um dos restaurantes Etíopes mais antigos de NY. Lave as mãos, só elas serão usadas. E preparem o paladar para sabores apimentadíssimos.

Ali’s Kebab Café (25-12 Steinway Street, Queens) comida Egípcia como nunca se viu nesse lado do planeta. Ali e seu irmão trazem as delícias do norte e do sul do país. A dica aqui é ser corajoso e experimentar parte de animais nada convencionais: pé e cérebro de vaca, testículos, fígado e coração de cordeiro… No final – fumar um bom shisha de maça e chá de hortelã.

Red Bamboo (140 W 4th St ) A antítese do citado acima. NY é uma cidade vegetarian friendly, of course. E o Red Bamboo nada mais é que um “vegetarian soul café”. Não é puramente vegetariano, também serve muitos pratos com frango e peixe, assim, vegetarianos levam os amigos não-vegetarianos e todos comem felizes. Com forte influencia Asiática, porque não pedir edamame, um lo mein ou dumplings?

Café Glechik (3159 Coney Island Avenue, Brooklyn) refeições tradicionais Russas por ótimos preços. Há quem diga que esses pratos são imperdíveis: coelho ao molho de vinho branco e palmeni (mini raviolis).

Hagi (152 West 49th Street) Não podia faltar um japa, mas esse underground não foca em sushi. O bom aqui é ver lado cozido da culinária japonesa: espetinhos, cabeça de yellowtail e shumais (dumplings).

Prune (54 East 1st Street ) A vida da chef Gabrielle Hamilton é um enigma, e esse enigma é traduzido na sua culinária que não é francesa, não é italiana, é dela; e é multicultural. Dizem que outros chefs renomados muitas vezes matam sua fome ali, com camarões gigantes e o famoso tutano de boi, cujo chef disse que comia na sua infância. O brunch lá é disputadíssimo.

Chega, estou nostálgica e faminta.

Vou curar meu escapismo com um bom açaí aqui no Leblon. Será um bom antídoto.

Dia de Reyes

2010 janeiro 7
por tetelacerda

Ontem, dia 6 de Janeiro, foi dia de Reis. Na Espanha, Dia de los Reyes.

Mais um feriado no calendário, que se cair numa sexta ou segunda, é ótimo para uma “puente”, como dizem por lá – fim de semana prolongado.

Esse dia é mágico, é como Natal outra vez. As famílias estão reunidas, a mesa está farta e todos ansiosos pelos “regalos”.

Cada cidade tem uma parada, a “cabalgata” com os 3 Reis Magos em Camelos, representando a ida até Belém para encontrar o menino Jesus. Nesse dia vale sentir-se como uma criança, afinal muitos presentes são distribuídos. Cada criança escolhe um rei preferido que será o rei que entregará os presentes.

A ceia não é tão formal como a do dia 24, mas é deliciosa e não pode faltar doces, especialmente o “Roscón de Reyes”, um bolo típico para essa data, sempre acompanhado de chocolate quente feito em casa.

Roscón de Reyes

Aqui no Brasil não tem feriado nem presentes, ironicamente é muitas vezes o dia em que tiramos a decoração natalina. È como um banho de água fria dizendo “a festa acabou”, irônico, não? Lá o Natal se renova, aqui ele termina. Acabou a festa… Hora de voltar à realidade. Isso em espanhol é “aguafiestas”.

A Nostalgia de Voltar

2010 janeiro 3
por tetelacerda

Eu já tinha falado aqui sobre a psicologia de voltar para casa. Ao regressar após quase dez anos fora do Brasil, dissequei pensamentos e sentimentos: e sensação de estar desassociada do mundo, de não saber onde é o verdadeiro lar, a sensação semi squizofrenica de mudar de um lugar para o outro, de um grupo para outro, de um lar para o outro. Sensação esta acalmada pelo calor de estar de volta, de rever e reviver; sentir sabores e ver rostos familiares.

Lembremos que psicologia não é o estudo do comportamento, é o estuda da alma.

Até que nessa véspera de Natal senti a nostalgia da volta. Voltar para um lugar onde já se morou e viver esse sentimento melancólico. Cheguei em um aeroporto estrangeiro onde um oficial da imigração após fazer umas tantas perguntas carimbou meu passaporte e segui adiante com o sentimento de estar chegando em casa. Seria isso normal? A terra não é a sua, o idioma não é o seu. Mas ao mesmo tempo é. E é sim sua casa, nessa forma estranha.

Ao passar pelas ruas, vendo as paisagens, placas, caminhos que tomava diariamente, as memórias viam como flashbacks. Comecei a lembrar como foi chegar, como foi partir. As pessoas que ali conheci, que convivi. Lembrei dos porquês. E vivi essa nostalgia de voltar para um lugar onde já foi meu lar.

E que sentimento é esse? É um sentimento que te faz relembrar, observar vagarosamente absolutamente tudo e todos. Ver as diferenças. O que mudou? O que continua igual? Quem já se mudou? Dá uma vontade de ir aos restaurantes prediletos, andar pelas ruas. Dá até vontade de voltar. Por um tempo. Te faz comparar. Lembrei o que gostava e o que não me agradava. O que era simples e prático, o que me irritava. O que era belo e o que era tedioso. O que era organizado e o que era burocrático e maçante.

Viver essa nostalgia não é relembrar, simplesmente. É também transportar-se, reconectar-se. É re-experimentar com sabor de saudade.

Morar em diferentes lugares é uma benção e uma maldição. Conhecemos pessoas e culturas diferentes. Enchemos a mente e a alma de experiências novas que nos engrandecem. Ao sentir saudade, frio, choque cultural, crescemos, amadurecemos, julgamos menos. Mas ai vêm as despedidas. O fim de uma vida e o começo de outra. E nunca seremos iguais. Para sempre sentiremos falta de pessoas, lugares e coisas. Ainda que tudo fosse igual, você será diferente. Só a essência permanece; o demais será uma permuta permanente.

Na Tailândia, côco não é só para beber água

2009 dezembro 11
por tetelacerda

Na Tailândia, côco não é só para beber água. Há uma série de produtos derivados desse fruto, a maioria comestível, vastamente usada naquele lado do planeta.

Em Damnoen Saduak, na província de Ratchaburi, cerca de duas horas de Bangkok, visitei uma fazenda produtora desses produtos: açúcar, óleo, vinho, doces, além de artesanatos como bolsas e luminárias.

O melaço do coco vira açúcar, o óleo é para hidratar a pele ou o cabelo, e o vinho era quase um licor, mas surpreendentemente saboroso.

O processo começa, naturalmente, extraindo a matéria prima. Os trabalhadores sentam em um banco que tem um ralador na ponta e ralam o côco, que será espremido até sair um melaço. Uma maquina manual e antiga é usada para o processo de transformar o melaço em açúcar, que é totalmente natural e orgânica.

melaço se transforma em açúcar

melaço de côco

fazenda de côco

A fazenda era riquíssima em natureza, além dos produtos de côco, tinha um orquidário natural, pés de pimenta, bananeiras com flores (jamais havia visto), flor de lótus, árvore de pomelo (uma fruta que lembra grapefruit porem verde por fora e amarela por dentro), sem contar o riacho que passava por trás com peixes em diferentes tons de laranja, vermelho e branco, imensos, brigando para pegar os pedaços de pão.

flor da bananeira

flor de bananeira

Visitei a casa de uma família de trabalhadores da fazenda. Era uma casa tradicional tailandesa, ou seja, suspensa da terra (para evitar inundação durante a temporada de monção e para deixar o ar correr e ter uma melhor ventilação). O espaço interno só tinha uma parede de divisão – para a cozinha. O resto da casa é uma área comum, não existem quartos. Privacidade? Como assim? Todos dormem juntos em colchonetes com mosquiteiros caindo do teto. Um canto é reservado para o santuário, onde tem uma imagem de Buda e as oferendas (comida, refrigerante e flores). A cozinha era a única parte separada e tinha uma pia e uma pequena geladeira, ambos antigos e canecas penduradas em cima de uma estante com pratos de metal e talheres. Tudo muito simples, mas com muita personalidade.

casa tradicional Tailandesa

casa Tailandesa

Com tanto côco nesse nosso Brasil, bem que podíamos além de beber a água e comer a cocada, inventar alguma moda, ou algum outro quitute.